No presente momento apenas um oceano de emoções. Alguém
buscando ser melhor, tentando por mais um caminho. São tantos os caminhos...
Sou alguém que deixa seus impulsos tomarem conta, suas
emoções fluírem, as palavras saírem e depois... Arrependo-me. De estragar o que
mais importava, e de não saber o quanto importava até que tudo estivesse
arruinado. Sou alguém que se arrepende
de magoar, que sofre a dor do outro.
Uma infância adorável. Eu diria perfeita. Livre.
Completamente inocente e infantil, como toda infância deveria ser. Ir pra
escola pela manhã, ser uma aluna aplicada como todas as garotas deveriam ser
(afinal, naquele tempo os bagunceiros eram os garotos). Após a escola um almoço
na frente da televisão com a irmã mais nova assistindo programas que apesar de
infantis, tinham conteúdo, ensinavam lições, educavam. Um pouco de videogame,
dever de casa pronto, brincar com as vizinhas na rua. Participei de clubinhos,
fazíamos teatros, montávamos coreografia, era o auge da criatividade infantil.
Subíamos em árvores, andávamos de bicicleta, tomávamos banho na piscina de
plástico. Uma vida simples. Uma vida extremamente feliz. Pais adoráveis, quarto
dividido com a irmã, casa simples, nada de luxo, muita felicidade. Se havia
algo de ruim? É claro que aprontávamos e ganhávamos castigo ou umas palmadas de
vez em quando. Mas não considero isso algo ruim de maneira alguma, tínhamos
limites. E com todos os limites e toda a inocência ainda tinha infinitamente
mais liberdade do que as crianças de hoje em dia. Sem dúvida a melhor época da
minha vida.
Na adolescência as coisas complicaram bastante. Digamos que
meu pai resolveu tomar as rédeas da nossa educação (pois até então viajava
muito) e as coisas começaram a ficar... Sufocantes. Superprotetor. Ele não
sabia, é claro, mas estava criando um monstrinho prestes a se rebelar... Então
aconteceu. Minha primeira crise de identidade, aquela vontade de gritar,
espernear e depois querer afundar. Eu tinha 13 anos.
Não posso me lembrar de todas as vezes que isso se repetiu desde então. A
explosão, o fluir intenso de sentimentos, alguém magoado (na maioria das vezes
eu mesma), o arrependimento e, por fim, a vontade de afundar. Vocês podem
pensar que a parte mais perigosa do processo é a explosão, mas, acreditem, a
vontade de afundar, de desaparecer do planeta, o sentimento de impotência
diante de escolhas que não são minhas pra ter, a vontade de fugir de mim mesma,
de encontrar o lugar onde finalmente a paz surgiria é muito pior.
Essas são coisas que não sei bem como explicar, certamente poucas pessoas
conseguiriam entender. Eu me virei bem algumas vezes, procurando saídas.
Escrevia, ouvia música, lia muito, ainda leio. Deveria haver alguma forma de
canalizar todo aquele sentimento antes que explodisse. Deve haver. Colocar no
papel é uma delas. Colocar pra fora se exercitando é outra (talvez a minha
favorita). Bebida... Não é pra mim. Cigarro? Acreditem, já estive lá e não há
nada pior para uma pessoa que gosta de exercícios. Drogas? Vamos dizer que
também foi um caminho mal sucedido. Noites e noites em claro, chorando... Isso
eu fiz muito. Não estou bancando a vítima aqui, minhas escolhas me levaram a
cada uma dessas noites. Ou talvez não tenham sido bem escolhas... Impulsos.
Remédios pra dormir, psiquiatras, psicólogos... A igreja, a bíblia, Deus. Essa
foi, na verdade, a minha escolha mais atual. Principal motivo: os ensinamentos
da bíblia realmente tornam as pessoas melhores, mas somente aquelas que os aplicam
em suas vidas, no seu dia a dia. Muitas daquelas pessoas não são assim. Mas
quem sou eu pra julgar?
Hoje venho escrever porque mais um caminho escolhido, um que acreditava ser
promissor, me fez decepcionar. O que me levou tanto tempo na vida pra tentar
esse caminho, embora eu sempre soubesse que estava lá, foi o OBRIGAR das
pessoas, o fanatismo. Deixe-me explicar melhor: nunca gostei de pessoas que só
sabiam falar nesse assunto, o fanatismo me deixa irritada, a falta de conhecimento
em outras áreas, a pregação cansativa e forçada. Muitas dessas pessoas só sabem
falar. Como os próprios cristãos diriam: “fariseus”. Mas tanto quanto isso me
irrita, me irrita o fato de as pessoas deduzirem que porque você foi um dia na
igreja, porque passou a ir até regularmente, você tem a OBRIGAÇÃO de estar lá,
que você DEVE isso a Ele e que qualquer outra escolha que não seja estar lá
estará errada. Não foi isso que aprendi das lições que lá mesmo me foram
ensinadas. Se eu quiser buscar a palavra no conforto do meu lar, bom pra mim,
pois estou buscando conhecimento de qualquer forma. Não que eu não saiba da
importância de estar em comunhão com outros cristãos, da importância da oração
em grupo e tudo o mais, mas você não precisa ir vários dias da semana na igreja
e, muito menos contra a sua vontade. Pior ainda! Isso não é cristianismo, é falta
de respeito! Você diz uma vez que não vai, a pessoa insiste, você fala de novo,
a pessoa insiste outra vez e não desiste até que você esteja completamente
irritado e de saco cheio.
Eu realmente passei a acreditar na palavra, a tentar cumprir tudo aquilo, a
querer ser uma pessoa melhor, a ter Deus comigo. Gosto da forma que me sinto
quando vou lá de boa vontade. Sem ter que fingir sorrisos, cumprimentar pessoas
que não quero. Mas de forma alguma me sinto uma boa cristã se estiver indo de
mau humor, triste, sem querer estar em comunhão com outras pessoas, querendo
estar em outro lugar, quem sabe orando em casa, sozinha, na paz do meu lar. Não
sinto como se nesses momentos de maior sofrimento eu pudesse me abrir com Deus
no meio de todas aquelas pessoas. Apenas não sou esse tipo de pessoa. Não sei
fingir. Meu problema é muito mais profundo do que qualquer uma delas possa
entender. Por outro lado, me sinto confortável em conversar com Ele sozinha
nessas horas, liberar tudo que há dentro de mim, realmente oferecer minhas
lágrimas a ele. Dizem que Deus conhece nosso coração, conhece profundamente
cada um de nós, lê todos os nossos pensamentos. De acordo com isso, pode-se
conversar com Ele em qualquer lugar e a qualquer hora do dia.
Não, eu não quero desistir de ir à igreja, mas me traz profunda tristeza que as
pessoas queiram me forçar, me fazem querer realmente o oposto, me afastar. Por
que não entendem? Por que não respeitam?
Já perdi tanta coisa importante na vida por causa dos impulsos...
E já descobri que muitas delas não eram realmente importantes. Agora me sinto
no meio de um furacão, prestes a perder a pessoa que considerei mais importante
até hoje. Se já não o perdi. Sinto-me tão confusa e triste e com tanto medo de
colocar tudo a perder... E ao mesmo tempo sinto que talvez eu já tenha perdido e,
mais uma vez, a conhecida sensação de querer afundar retorna. Toma conta do meu
ser. Tantas coisas passam pela minha cabeça... Se ao menos eu tivesse o meu
diploma, algum dinheiro pra ir embora e recomeçar uma vida nova longe de tudo o
que conheço... Se eu finalmente desistisse e colocasse um fim em tudo, tirando
a própria vida... Pra uma pessoa que acredita no Reino do Céu, deixa de ser uma
opção, a não ser nos momentos mais desesperados. Não quero passar a eternidade
no inferno, ou no limbo ou qualquer coisa assim... É tudo outra vez, o
sentimento de impotência. De não poder fazer uma escolha porque você
simplesmente não tem escolha. Ah, se a
vida fosse como os filmes! Se eu pudesse simplesmente fazer uma mala e ir pra
qualquer lugar recomeçar! Simplesmente não é uma opção pra quem não tem muito
dinheiro. Recomeçar na vida real requer muito tempo e muito dinheiro. Que eu
não possuo.
Então me faço a pergunta novamente e repito várias vezes dentro da minha
cabeça: quem sou eu? De volta à estaca zero.